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19 de Abril de 2017 Publicado por: Folha Noroeste Categoria: Regional

Apenas duas comunidades indígenas resistem em SP, sendo uma delas no Jaraguá

Expulsos pelo progresso, eles diminuíram 30% em 10 anos
Aldeia de Indios da Tribo Guarani Jaraguá. Foto: Nelson Coelho/Diario SP

Publicado às 9h15

Por Fernando Granato, do Diário de SP

Olhar assustado, a índia Marli Parapotê, 31 anos, costuma agarrar suas duas filhas toda vez que algum estranho entra na aldeia em que vive, no Jaraguá, Zona Oeste da capital paulista. Aos que perguntam o que ela mais deseja para suas duas pequenas, ela não hesita em dizer: "Espaço".

Asfixiadas pelo crescimento da cidade, as comunidades indígenas que restaram na cidade acabaram se descaracterizando pela falta de território. Na comunidade da índia Marli, por exemplo, ninguém mais planta o que come. O alimento vem de doações e o pouco de dinheiro que ganham chega pela venda de artesanatos.

A pesca também tornou-se impossível nesta que é a menor aldeia indígena do Brasil, com uma área reconhecida pela Funai (Fundação Nacional do Índio) de de 532 hectares, mas apenas 1,7 na posse dos nativos. Os rios que permanecem estão poluídos.

Foto: Nelson Coelho/ Diário de SP

A situação da aldeia Jaraguá não é isolada. Na outra TI (Terra Indígena) da capital, a Tenonde Porã, localizada em Parelheiros, na Zona Sul, os problemas se repetem.

Nesta semana em que se comemora o Dia do Índio, o DIÁRIO traz um Raio X nada animador dessas comunidades que ainda resistem em sobreviver na maior metrópole da América do Sul.

Segundo dados do último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 10 anos a população indígena residente em São Paulo diminuiu 30%, passando de 18.692 habitantes em 2000, para 12.959 em 2010, quando foi feito o último registro pelo IBGE.

Esse número inclui todo morador de ascendência indígena.Já nas aldeias, o número é bem menor. Na Tenonde Porã, de Parelheiros, vivem aproximadamente 1.010 pessoas. Na Jaraguá, 668.

As duas terras indígenas da capital paulista sofrem com problemas de regularização fundiária. Em ambas, a maior parte da área declarada pela Funai aguarda a continuidade do processo de demarcação. No caso da TI Jaraguá está em disputa judicial.

Assim, a área ocupada é bastante restrita, impondo limitações ao modo de vida Guarani, fortemente centrado no cultivo de milho, além de batata, mandioca, amendoim, e erva-mate.

Com essas restrições, proliferam nessas aldeias problemas sociais, como o alcoolismo. O MPF (Ministério Público Federal) chegou a entrar no ano passado com uma ação civil pública pedindo que a Funai implementasse políticas públicas de combate ao alcoolismo e uso de drogas ilícitas na aldeia Jaraguá. A Funai disse que faz acompanhamentos periódicos nessas aldeias indígenas.

Cultura indígena ainda está impregnada na cidade

Desde os primórdios o homem branco quis impor sua cultura e religião aos indígenas em São Paulo e no Brasil.

Numa carta do jesuíta Manuel de Nóbrega ao rei de Portugal, relatando a fundação da vila que depois seria São Paulo, ele diz: "Ajuntamos todos os que Nosso Senhor quer trazer à sua Igreja, e aqueles que sua palavra e Evangelho engendra pela pregação, e estes de todo deixam seus costumes e se vão estremando dos outros, e muita esperança temos de serem filhos da Igreja."

Apesar disso, a cultura indígena acabou impregnada na cidade desde os primeiros tempos. "Em São Paulo, falava-se não o português correntemente", observou Antonio Candido de Mello e Souza, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Segundo o professor, falava-se em São Paulo a chamada língua geral. "Era o tupi-guarani adaptado pelos Jesuítas", explicou. "Nós só não somos bilíngues hoje em São Paulo por uma pressão do governo português."

O estudioso observa que até mesmo entre aqueles que massacravam os indígenas acabou gravada a cultura nativa. "Homens importantes dos séculos 17 e 18, acabaram recebendo apelidos indígenas", disse. "Bartolomeu Bueno, por exemplo, era o Anhanguera." E as marcas permanecem. "Não percebemos, mas são muitos os nomes indígenas que se mantém", disse. "Anhangabaú, Itaquaquecetuba, Tamanduateí e tantos outros."

Foto: Nelson Coelho/ Diário de SP

Não podemos deixar nossa cultura Guarani morrer aos poucos

Apesar de todas as dificuldades, minha missão é preservar  a cultura Guarani. A língua Guarani é a principal falada na aldeia. Mantemos nossos rituais religiosos todo os dias.

Aqui, as crianças aprendem a falar Guarani com a mãe. Mas o que mantém a língua viva é a conversa do dia a dia, de um para outro. Todos os dias a comunidade vem na Opy, que é a Casa de Reza. A música e as orações fortalecem o espírito.

Nossa principal cerimônia é o Nheemongaraí, onde é realizado o benzimento dos cultivos tradicionais e são batizadas as crianças. A liderança espiritual é exercida pelo Tamõi, o pajé. Procuramos passar o amor à terra, que é nossa mãe. Precisamos amar desde cedo nossa terra. O homem branco está maltratando a terra, por isso ela está se revoltando e estão acontecendo tantos terremotos, enchentes, desgraças. O povo Guarani vive em comunhão com a natureza, desde que nasce até a morte. Por isso queremos preservar essa região de tanta destruição.

Índios sofrem com cachorros e falta de saneamento

A TI (Terra Indígena) Jaraguá, na Zona Oeste de São Paulo, tem mais cachorros do que gente. Segundo dados da Funai (Fundação Nacional do Índio), são 668 moradores. Já o líder Vitor Karai informa que lá estão cerca de 700 cães.

"Esse é hoje nosso principal problema", disse Karai. "Como sabem que não nos desfazemos dos cachorros, todo mundo vem aqui abandonar os animais."

O índio disse que esse descarte causa problemas à comunidade. "Muitos desses animais são bravos, mordem nossas crianças", afirmou. "Além disso não temos como alimentar tantos cachorros."

Os índios dessa TI pertencem ao povo Guarani Ñandeva. Numa área de 1,7 hectare existem cinco aldeias: Tekoa Pyau, Tekoa Ytu, Itakupe, Ita Wera e Ita Endy.

Além dos cachorros, outro problema da comunidade é a falta de saneamento básico, segundo o líder. "O esgoto corre a céu aberto e traz muitas doenças", disse Karai. "Temos apenas 22 banheiros para toda a população e isso é muito pouco".

Na tarde da última quarta-feira, o DIÁRIO encontrou pelo menos três pontos de esgoto transbordando nessa TI. Em dois deles havia crianças brincando em meio à água contaminada.

A Sabesp disse que na rua da aldeia já existe infraestrutura de água e esgoto. "Porém, o local que a tribo reivindica saneamento básico localiza-se atrás do Pico do Jaraguá, uma área de preservação ambiental que exige autorização e tratativas com diversos órgãos para atender a tribo indígena", afirmou. "A empresa já realizou diversas reuniões com os envolvidos e há estudos em andamento para atender as solicitações."

Nessa comunidade existe uma UBS (Unidade Básica de Saúde) onde um pediatra e uma ginecologista atendem semanalmente. Há ainda um Ceci (Centro de Educação e Cultura Indígena), mantido pela Prefeitura de São Paulo, voltado a crianças de 0 a 6 anos. Ali os próprios indígenas são educadores.

Foto: Nelson Coelho/ Diário de SP