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28 de Fevereiro de 2013 Publicado por: Folha Noroeste Categoria: ARQUIVADAS

Patrimônio cultural conta a história da Lapa

Bairro abriga vários prédios históricos, alguns tombados e preservados, outros em mau estado de conservação

Nos seus 422 anos de existência a Lapa é um dos bairros mais bem servidos no que tange a infraestrutura urbana. É um polo atrativo para investidores na construção de empreendimentos comerciais e residenciais de alto padrão. Nos últimos anos, o número de lançamentos sempre ficou acima de 20 por ano. Essas modernas arquiteturas coabitam lado a lado com o passado histórico local, cuja tendência é desaparecer se não for bem recuperado. Fazem parte da biografia do bairro alguns símbolos bem tradicionais, como o Tendal da Lapa, a Estação Ciência e o Mercado Municipal, todos localizados em um mesmo corredor.

No coração do bairro está o Mercado Municipal Rinaldo Rivetti, inaugurado em 1954 e idealizado pelo vereador lapeano Ermano Marchetti. Em 2009, o Mercadão teve as fachadas reconhecidas como patrimônio histórico e elas não podem ser modificadas. Até as cores (verde e bege) continuam a ser as mesmas da década de 50, embora falte permanente conservação.
Para quem chega ao bairro vindo da Avenida Francisco Matarazzo, logo percebe um imponente casarão construído no início da década de 30. É da Sociedade Beneficente União Fraterna, local onde se realizam festas e bailes para a terceira idade. O prédio está preservado, porém não está salvo dos pichadores.
Intervenção artística     
Ainda percorrendo a Rua Guaicurus, bem ao lado da Estação Ciência – cujo imóvel foi tombado em 2009 devido ao seu valor histórico -, desponta outro equipamento com 24 anos de atividades e uma longa trajetória até se transformar em polo fomentador de cultura.  Antes de se tornar o Espaço Cultural Tendal da Lapa e abrigar inclusive a Subprefeitura Lapa, a edificação funcionava como frigorífico. Ainda é possível observar as vigas de concreto armado onde eram penduradas as peças de carne e a plataforma externa onde caminhões e um ramal de trem descarregavam a carne. “Entre a desativação do entreposto e a destinação dos galpões pela subprefeitura, passaram-se alguns anos de tentativas de ocupação, mas a maior parte do tempo o prédio ficou abandonado”, diz Marco Ozzetti, arquiteto do Tendal da Lapa. Com a revitalização, o espaço cultural tornou-se referência para jovens das zonas norte e oeste, sendo o único totalmente gratuito na região noroeste. É o que revela o supervisor de cultura da Subprefeitura Lapa, Gê Barbosa de Souza.
Já o Poupatempo na mesma rua ocupa a área de antigos galpões construídos próximos da linha férrea à época da industrialização da cidade. De autoria do escritório do arquiteto Pedro Taddei e Associados, o projeto recuperou a fachada original dos imóveis e acrescentou, internamente, uma cobertura transparente. Ainda que as fachadas dos galpões não fossem tombadas, o arquiteto optou por restaurá-las - preservando assim a memória local. Segundo ele, foram substituídos e tratados tijolos, argamassas de revestimento e caixilhos.
Outro símbolo da Lapa é o prédio da Editora Melhoramentos, na Rua Tito, hoje cercado de empreendimentos modernos. Os galpões industriais foram construídos em 1922 para abrigar a gráfica e seus departamentos técnicos, e o administrativo em 1948. Walter Weiszflog, membro do Conselho de Administração da companhia, revela que “já houve proposta de compra, mas como não há intenção de deixar o imóvel, ela não prosseguiu”.
Desafio: recuperação do patrimônio
O sobrado no número 205 da Rua Carlos Vicari, onde nos anos 60 e 70 funcionava a torrefação de café Santa Efigênia, foi tombado recentemente pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da cidade). A antiga fábrica funcionou até o fim dos anos 1990. Durante os sete anos do processo, o sobrado e a chaminé da antiga fábrica ficaram sem manutenção por conta do processo de tombamento que impediu qualquer alteração no imóvel, nem mesmo reparos de conservação. Mesmo deteriorado, o prédio da torrefação é um dos poucos exemplares arquitetônicos da cidade remanescentes do período de industrialização ocorrido no final da década de 1920.
Segundo o órgão, o tombamento é um reconhecimento do valor histórico do imóvel, mas a responsabilidade da manutenção continua sendo do proprietário. É o caso também da centenária Escola Estadual Anhanguera, cujo edifício foi inaugurado em 1912. No final da década de 50, a escola, então denominada Grupo Escolar Pereira Barreto, foi transferida para o prédio da Rua Nossa Senhora da Lapa, comprado pelo Estado da Organização de Ensino Conselheiro Lafayette (da família do diretor do Colégio Santo Ivo, José Carlos de Barros Lima) para abrigar o Ginásio Estadual Anhanguera, que foi transferido para o edifício da Rua Antônio Raposo, 87, onde funcionava o Pereira Barreto.
A diretora Maria Helena Pereira de Souza sofre em não poder fazer os mínimos reparos na infraestrutura interna do prédio, que convive com goteiras e deterioração. “Não há uma sala de aula que tenha uma porta que feche direito”, conta. Com 1.600 alunos e mais de 100 professores, ela luta para que seja acelerado o processo de restauro e reforma iniciado há mais de quatro anos. Enquanto não há solução, a diretora recebe sobras de tintas de outras escolas para realizar simples reparos.
Essa dificuldade em manter conservados os imóveis tombados revela uma séria deficiência na legislação. O arquiteto Pedro Taddei lembra que a lei de tombamento deveria ser revista e que o governo deveria criar mecanismos de apoio, abrindo mercado aos profissionais de restauro e destinando verbas para a preservação da identidade cultural dos bens públicos. Para isso, poderia ser criado um “circuito de cultura e entretenimento na área, que compreende desde a Estação Água Branca até a Estação Ciência, como medida de valorização histórica do bairro”, idealiza.  
 

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