REGIONAL

Nega Keke luta para transformar vidas na Brasilândia

Ex-fi scal de ônibus, moradora largou a profissão para criar ONG em bairro com severa exclusão social

Publicado às 11h45

Por Cristina Braga

De aparência franzina, Nega Keke, 43 anos, mãe de seis filhos, é uma mulher batalhadora. Sabe muito bem que no Jardim Vista Alegre, a fome não espera. Em um país mergulhado na corrupção, as distâncias sociais na
frágil Brasilândia se tornam evidentes e superlativas na vida de seus 300 mil habitantes. É uma luta diária para coibir o descarte irregular de lixo. Diante disso, por que não fazer do lixo a matéria-prima para reciclar vidas? Foi o que a motivou a criar o Instituto Família Afro, reduto de esporte e arte para meninos carentes. “Com todas as dificuldades e sem ajuda financeira. A energia da minha casa está cortada porque usei o dinheiro para manter a ONG”, ressalta. “Mas faço meu 1%.”

Nega Keke prometeu ao pai, em seu leito de morte, que faria um projeto para melhorar as condições dos moradores do bairro. Viu em terrenos debaixo da linha de transmissão
da Eletropaulo a possibilidade de organizar hortas comunitárias. “Os moradores chegam até aqui e trocam garrafas PET, latinhas e papelão por verdura. E, com o dinheiro da reciclagem, cerca de R$ 100 por semana, eu compro mais sementes”, conta.

Região da Brasilândia sofre com descarte irregular de lixo. Foto: Cristina Braga

As hortas ficam no terreno da CETESB/Eletropaulo, na Rua Rendeira; no piscinão do Jardim Vista Alegre e na Avenida Penha Brasil, ainda a ser formada. A iniciativa aproveita, ainda, senhores do bairro para tomar conta dos
locais, plantar e recolher resíduos. “Mais tarde, quero fazer uma indústria de reciclagem, agregando educação e cidadania.”

Dedicada, Keke também formou um time de futebol, o Afro Futebol Clube, com jovens de 15 a 24 anos. “Se não tirar o pessoal da rua, vai para o tráfico”, pontua. Já no campo cultural,ensina aos “meninos” o ofi cio da arte com trabalhos envolvendo reciclagem de pneus – expostos recentemente na Fábrica de Cultura do bairro. “Precisamos de uma tesoura pneumática para cortar o material e, também, de uma perua para transporte”, enumera a moradora.

À espera de melhores dias, ela deixa uma pergunta no ar: “cadê a contrapartida social prometida pelo Rodoanel Norte? Só vejo a destruição da mata nativa da Brasilândia”.

 

Foto: Cristina Braga
Keke também formou um time de futebol, o Afro Futebol Clube, com jovens de 15 a 24 anos. Foto: Cristina Braga

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