REGIONAL

Obra no Jaraguá é embargada após mobilização da comunidade indígena contra desmatamento

Publicado em 05/02, às 9h20

Por Priscila Perez e Cristina Braga

Após a mobilização da comunidade indígena pela preservação de uma área verde no Jaraguá, zona noroeste da capital, a Prefeitura de São Paulo decidiu embargar a obra da Construtora Tenda, proprietária do terreno onde seriam construídas cinco torres de moradias populares (o local é demarcado como Zona Especial de Interesse Social – ZEIS). O projeto é vizinho às aldeias da comunidade Mbya, que vivem no entorno do Parque Estadual do Jaraguá. Há cerca de 700 indígenas na região. Acampados no local, os índios protestam desde a última quinta-feira, 30 de janeiro, contra a derrubada irregular de quatro mil árvores nativas.

Embargo temporário

Segundo a Prefeitura, a construtora estava autorizada a derrubar 528 exemplares e, como contrapartida, plantaria 549 mudas no local. Além disso, outras 1.100 árvores seriam doadas ao município. Porém, tudo indica que o desmate foi além do previsto. É o que aponta o líder indígena Thiago Henrique Karai Djekuep. “Para nós, eles falaram em quatro mil árvores derrubadas.”

Protesto da comunidade indígena. Foto: Divulgação/Comissão Tekoa.

O imbróglio, entretanto, ainda está longe do fim, pois a decisão da Prefeitura é apenas temporária. A obra está embargada por sete dias. Este é o prazo que os índios terão para provar que houve um desmatamento irregular no terreno. A Construtora Tenda, por sua vez, reafirma que vai respeitar as determinações judiciais. “Mais de 50% do terreno já está sendo destinado para áreas verdes. O restante da área está sendo para moradias populares, que também é uma carência da região”, reitera Daniela Ferrari Toscano de Britto, diretor de negócios da Tenda.

A Folha Noroeste, que acompanhou de perto a manifestação indígena no Jaraguá, tentou gravar uma entrevista em vídeo com a construtora, mas não obteve resposta. Em nota, a Tenda reafirmou que “todos os procedimentos necessários foram adotados para a legalização do empreendimento, com aprovação dos órgãos competentes”. Confira a nota na íntegra:

“A Construtora Tenda reafirma seu respeito à comunidade local e ressalta que todos os procedimentos necessários foram adotados para a legalização do empreendimento, com a aprovação dos órgãos competentes, incluindo a supressão de 528 árvores, o replantio de outras 549 no local e a doação de 1.099 mudas para o município. A companhia ressalta ainda que, conforme o Plano Diretor do município de São Paulo, a área em questão tem destinação exclusiva para a moradia da população de baixa renda, que é o objetivo da construção. A Tenda reforça que está à disposição das autoridades e da sociedade civil para qualquer esclarecimento.”

Protesto e comoção

Há alguns dias acampada dentro de uma área de quase dez mil metros quadrados adquirida pela Construtora Tenda, no Jaraguá, a comunidade indígena acompanhou com tristeza quase 500 árvores da mata nativa serem derrubadas pela motosserra da incorporadora.

Segundo os guaranis, foram realizadas duas reuniões com funcionários da construtora. “Há cerca de uma semana, comunicaram à comunidade sobre a derrubada de quatro mil exemplares, alegando que, por serem árvores isoladas, não haveria a presença de animais e muito menos a necessidade de fazer consulta de devolutiva ambiental e indígena. Essas alegações não foram aceitas pela comunidade, e o diálogo não teve avanço.”

Pilhas de toras de madeira foram amontadas no local, além de animais mortos. Desolados, os índios alegam que o cedro, por exemplo, é uma árvore sagrada para eles. Próximo à cena, a reportagem da Folha Noroeste constatou um ninho de abelhas nativas, ameaçadas de extinção, jogado ao chão. “Usamos a cera para fazer velas para nossas cerimônias”, diz Márcio Werá Mirim. “Viemos aqui com o objetivo de fazer uma reza. A construtora desrespeitou nossa conversa feita no final do ano passado e começou a derrubar as árvores”, completa Sonia Ara Mirim.

Desmatamento no Jaraguá. Foto: Folha Noroeste.

O vereador Gilberto Natalini (PV) esteve no local e destacou que, “mesmo que a construtora tenha licença ambiental, a Prefeitura deveria repensar essa autorização”. “É uma coisa sem desculpa, porque se trata de um estrago ambiental”, enfatiza.

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